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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ampulheta; um jogo de xadrez

Ampulheta; um jogo de xadrez 


O diário de Ana Luiza

19/11/1993   -   Sexta-feira

Querido Diário.
Foi um dia importante. Há tempos não em sentia assim. E tudo começou há três meses.
Sempre gostei muito de jogar xadrez. Não sei, sentia-me no controle. Parecia que eu podia controlar tudo;
 até minha vida. Jogava, perdia, ganhava, empatava. Naquele dia, me vagloriava, por escapar com a Rainha e cercar o Cavalo do meu adversário, conseguindo também ameaçar o Rei dele. Foi inesperado, e a vitória chegou. Fiquei feliz. O dia estava frio e chovia muito.
Era tarde, fui dormir. A insônia me pegou, e eu fiquei horas pensando. Teorias... Bem, teoria é o que não me falta.
E criei uma.
A vida é como um jogo de Xadrez. Você tem que desconfiar de tudo, de cada passo que você der e, principalmente, de cada passo que seu adversário der. É como com as pessoas; cada pessoa toma uma atitude por um motivo, e devemos sempre saber as verdadeiras intenções desse motivo.
Você tem que usar cada rodada, não desperdiçar nenhuma. Se você não souber o que fazer, jamais jogue em falso. Pense e arranje o que fazer, e rápido, porque quanto mais tempo você pensar na sua rodada, mais tempo seu adversário terá para pensar umas quatro rodadas adiante, em várias situações. Mas nunca se desespere com o tempo; use sempre o tempo necessário.
Isso é como com a
 sociedade também; você não pode demorar pra tomar uma decisão, mas não
pode tomá-la sem pensar, e muito menos por querer fazer tudo depressa. Tenha cautela sempre.
E nunca se esqueça de surpreender; se seu adversário já pensou nas possibilidades de cada ação, então você deve ser imprevisível.
No xadrez, deve-se ter cautela sempre, e não desconfiar de tudo também; seu adversário pode usar a sua desconfiança em excesso, como uma isca.
Enfim..
. Estive teorizando a vida, comparando-a como um jogo de xadrez.
E me surpreendi.
Descobri que meu maior dom para o xadrez é poder ver cada rodada adiante. Eu posso imaginar todas as possíveis situações e os movimentos de cada ação, e fazer isso até três ou quatro rodadas adiante.
Por fim, peguei no sono e dormi.
Acordei. Meu pai não estava em casa. Fiquei preocupada... Onde ele estaria?
Era vazio. Minha mãe está em coma no hospital há 6 meses, e provavelmente, meu pai foi vistá-la.
Não me preocupei. O tempo passava, e nada do meu pai. Fui à sala. Encontrei um bilhete, e uma ampulheta grande. Devia marcar uma ou duas horas, ao caírem todos os seus grãos. No bilhete, dizia:

"Analu,
Eu percebi ontem o seu dom.
Observei você e seu pai jogando xadrez...
E vi algo especial.
Essa ampulheta lhe dará controle o dia todo.
você só terá dois dias para usá-la.
Em um dia, você pode fantasiar. No outro, fazer um pedido.
Eu quero que você aprenda a usar seu dom, e esse objeto servirá para isso.
Faça bom proveito."

Pensei que fosse brincadeira... Mas a pessoa parecia ser íntima. Analu? Por que me chamaria assim?
Toquei a ampulheta. Não fazia nada. Balancei. Mas nada. Joguei na parede... E nada. Joguei no chão... Não quebrou.
Mas, que diabos é isso?
Decepcionada
, sentei no sofá e fiquei observando uma mosca chata e inconveniente zanzar. Ele ia de um lado para o outro, mas não chegava à lugar nenhum.
Talvez seria isso o que eu estava fazendo.
Peguei a ampulheta e fiquei olhando os grãos de areia caírem. Acabei pensando no meu pai. Onde estaria agora? Será que foi ver minha mãe no hospital?
Seria tão bom... Imagine se, quando ele chegasse lá, na mesma hora, minha mãe despertasse! Imgine só, ela abrindo as pestanas carregadas de tempo, e sorrindo... Um sorriso angustiado, mas feliz.
No mesmo momento em que pensei nisso, encontrei me no hospital. Meu pai estava lá. Eu falava com ele, mas parecia que não me ouvia. Falava com as enfermeiras, mas elas não me respondiam. Será que estava invisível?
No mesmo momento, vi minha mãe abrir os olhos, e agir exatamente como havia imaginado. Quando ela sorriu, a imagem congelou. E eu passei a imaginar o resto da história.
Terminado isso, o tempo voltou, e fez exatamente como pedi.

Percebi a magia da ampulheta; eu imaginava as situações, e elas aconteciam. Mas eu não podia intervir em nenhuma; tudo acontecia sem minha presença.
Era como um jogo de xadrez.
Então, fiz 
de tudo. Induzi meu pai a ganhar na loteria, fiz minha mãe ser a mulher mais bonita do mundo... E até consegui conhecer o Elvis Presley no passado!
Mas o dia se passava... E a farra acabou.

Confesso, diário, que abusei do poder. E agora fui castigada.
Não sabia que era apenas ilusão.  Eu pensei que a ampulheta pudesse mudar a realidade.
Mas não. Ela só podia me mostrar como tudo seria em cada situação que eu imaginava.
O encanto acabou. Só tinha mais um dia. Eu voltei pra sala. Olhei meu redor... Era tudo um sonho, nada real.
A pior decepção da minha vida. Cai no sono.

A campainha tocou. Era meu tio, com notícias.
Era ruim. Muito ruim. Minha mãe falecera no hospital. Meu pai havia mesmo estado lá, e presenciou o fato. Morto por dentro, bebeu doses e mais doses de álcool, e voltou bêbado.
Bateu o carro no poste. Faleceu na mesma hora.

Lembrei-me da ampulheta. Eu tinha amis um dia... E era justamente o dia do pedido!
Tentei p
edir para o destino deixar meus pais vivos... Mas não aconteceu nada.
Acho que já sabia o motivo.
Eu só tinha um pedido. Só podia salvar uma pessoa.
Então, eu raciocinei todas as possibilidades de salvar meus pais.
Percebi que minha mãe não tinha jeito; talvez fosse melhor assim.
Mesmo salvando-a, ela continuaria em coma, porque eu só poderia pedir para ela voltar a viver, e não para sair do coma. Era um lógica estranha, mas fazia sentido.
Mas meu pai... Se ele não bebesse, voltaria seguro em casa.
Resolvi pedir, então.
Pedi para que meu pai não fosse visitar minha mãe naquele dia. Para que ele recebesse a notícia do falecimento dela em casa, e eu evitaria alguma besteira.

Deu certo. meu pai sobreviveu.

Foi em vão.
Meu pai foi ficando triste sem a presença de minha mãe.
Dois meses depois, pegou uma infecção no ouvido, e acabou tornando-se uma infecção cerebral, por conta do sistema imonológico fraco e vulnerável.
E meu pai faleceu.

O que eu aprendi... Talvez não faça sentido a ninguém.
Talvez todos olhem essa história como mais um caso triste.
Inteligente e sagaz é aquele que vê uma grande jogada da vida, num tabuleiro de xadrez.
E que sabe que não foi por acaso que o destino mexeu aquela peça.



Um comentário:

  1. "Haio parou e olhou atônita para Victor, com aqueles olhos que ela não sabia descever, bem à sua frente. Quis chorar e ao mesmo tempo rir, mas o sol ia se pondo e logo estaria frio.
    Muito, muito frio..."

    O que aconteceu com Analu no primeiro dia é o que alguém me disse que pensa sobre drogas o.o'

    E a teoria do tabuleiro de xadrez... É uma ótima teoria.

    ;**

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