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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A Rosa.

19/11/1993 - Sexta-feira.
Querido Diário.
Hoje é o último dia da minha vida. Mas eu já sabia. Vou explicar.
Estive tão perto... Tão próxima do verdadeiro fim dos meus propósitos. Tão próxima do verdadeiro fim das minhas tentativas. Essa não seria inútil. Avistei uma luz. Algo que me iludia, me encantava. Me trazia anseios. Desejos. Arrepio. Aperto... Não tinha onde me segurar. Não tinha como gritar. Pra quê gritar? Não era isso que eu queria?
Era a Morte.
Ela me deu um beijo no rosto. Beijo frio. Beijo de sangue. Beijo triste.
Beijo da Morte.
Ela era bonita. A moça mais bonita que já vi. Pálida. Boca vermelha, olhos escuros. Cabelos ruivos, liso. Capuz negro. Pele macia, fria, bonita. Admirava sua aparência. Era mais bonita que os anjos. Era um anjo.
Anjo da Morte.
Ela não falava. Mas sua voz invadia meus pensamentos. Era fria e cruel. Mas era doce. Seu olhar gelado... Era como se eu já soubesse o que iria me dizer.
Para ela, existia em mim uma flor que ainda não havia completado seu destino. Destino? Talvez existisse então.
Eu existia.
Eu morria.
Uma rosa branca. Minha alma era como uma rosa branca. Boa, pura. Mas sofria. De tão pura, não conseguia lidar com o mundo. Mundo sujo, repleto de lixo. Mundo frio, cruel, denso.
Uma rosa branca fechada. Que não desabrochou. Algo que precisava, para espalhar nos corações humanos toda a alegria e pureza.
Coração bom.
Morrendo.
Rosa sangrando pelo rosto curado. Beijado pela Morte.
Ouvi a voz doce da Morte. Sussurando em minha mente.
"Você ainda não completou seu destino. Ele é brilhante. Lindo. Livre. Não vou buscá-la agora. Pare de me chamar. Não quero buscá-la ainda. Não vou."
Ela me deu uma semente. Semente negra, bonita. Mandou eu plantá-la em um vaso, naquele exato momento. Plantei. Ela cresceu. Tornou-se uma rosa negra. Rosa negra? Isso não existe!
Agora existe.
Negra.
A única rosa negra do mundo estava comigo.
"Plante a flor negra da escuridão. É a única Rosa que existe em todo o planeta. Ela é parte de você. São os seus sentimentos. Toda a vez que você chorar, ela vai chorar. Quando você ficar triste, ela vai murchar. E se você ficar feliz, ela ficará linda, e você vai admirá-la."
A morte me olhou com frieza.
"Mas quando uma gota de sangue sair de seu botão, será seu último dia. Vai demorar até a gota descer pelo caule e cair na terra. Quando isso acontecer, irei buscá-la".
A Morte desapareceu.
Acordei.
Foi um sonho?
Olhei pro lado; a Rosa.
Conforme os dias passavam, eu sentia o que a Rosa sentia, e a Rosa sentia o que eu sentia. Era parte de mim. Parte da minha alma.
Não podia morrer sem a Rosa nunca sorrir.
Não podia viver sem nunca ver a Rosa bonita, feliz.
Eu não conseguia ficar feliz.
Mas tinha pena da Rosa.
Sempre foi tão difícil viver um dia de cada vez. Sempre vivi para esperar as feridas se cicatrizarem. Nunca vivi a vez, só vivi a dor. Vivi a esperança da dor se cicatrizar.
Não queria que a Rosa morresse, sem nunca sorrir.
Levantei. A Rosa perfumava minha dor. Queria fazê-la feliz.
Saí pelas ruas. Respirei o ar puro da praça. Conversei com velhinhos sentados nos bancos. Eles eram legais. Nunca reparei neles.
Eu passava todos os dias na frente do parque, mas nunca havia reparado nas árvores, em como eram lindas. Nunca havia reparado na grama verdinha.
Anoiteceu.
O céu estava estrelado. O céu mais bonito que já vi.
Nunca reparei no céu. Nunca reparei na imensidão do universo.
Fiquei feliz. E, pela primeira vez em anos, sorri.
Voltei pra casa. A rosa estava bonita. Fiquei mais feliz ainda.
Comecei a querer conhecer pessoas novas. Comecei a freqüentar o parque.
Fui feliz por uma semana.
Cheguei em casa; havia uma gota de sangue no botão da Rosa.
Eu nunca dei valor à minha vida. E, agora que comecei a amá-la, ele vai desaparecer em um dia.
Queria fazer algo pelo mundo.
Hoje eu escrevi a carta mais importante da minha vida. Vou confiá-la em você, alguém que sempre escrevi meus desabafos. Meu melhor amigo.



[Esse diário foi encontrado do lado do corpo. Não encontramos rosa nenhuma, mas encontramos uma carta marcando essa página. Nela, continha uma autorização para doação de todos os seus órgãos, e sua assinatura. A garota podia fazer isso; já possuía 18 anos.]

Não deixe esse mundo sem nunca fazer a rosa sorrir.

2 comentários:

Obrigada pela visita!

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Um grande beijo da Gabi :)